Por que escolhi a oftalmologia. Dr. Francisco Stefanini

Como cheguei à oftalmologia e à retina

Sou médico porque, de certa forma, sempre soube que seria. Meu pai é médico, e essa presença foi um espelho que me guiou desde cedo. Mas confesso: no fim do colégio, cheguei a duvidar. Eu gostava de outras áreas, de ciências humanas, de história, gostava de escrever, de arte, e me perguntei mais de uma vez se aquilo era realmente meu ou apenas um caminho que eu havia herdado. Segui. Entrei na faculdade carregando essa dúvida, e ela não desapareceu de imediato. Foi ficando, foi voltando, foi se misturando à rotina de quem estuda e aprende aos poucos a gostar do que faz.

Por que escolhi a oftalmologia?

Durante a graduação, nenhuma especialidade me chamou de imediato. Foi a oftalmologia que, sem alarde, foi conquistando meu interesse. Comecei a enxergar o olho quase como uma vida dentro da vida: um órgão pequeno, com uma potência desproporcional ao seu tamanho. É por ele que passa grande parte do que somos, sentimos e compreendemos do mundo. Para mim, o mais impactante dos nossos sentidos. A oftalmologia me oferecia algo raro, o equilíbrio entre a leveza do consultório e a imensa relevância do que ali se decide. E era uma especialidade clínica e cirúrgica ao mesmo tempo. Eu sabia que não conseguiria ficar só do lado de fora, escutando e pedindo exames. Eu queria agir, e a oftalmologia coloca a ação nas nossas mãos. Foi pela pesquisa, ainda na graduação, que conheci a oftalmologia de verdade, e quando finalmente cheguei lá, tive certeza. Ao contrário de muitos que se desencantam ao conhecer a especialidade de perto, comigo aconteceu exatamente o oposto.

E então, a retina

Dentro da oftalmologia, escolhi a retina por razões que foram se somando. A primeira foi a sua complexidade: quanto mais difícil, mais me desafiava; e, se grande o desafio, maior ainda a responsabilidade. Muitas doenças da retina podem comprometer de forma irreversível a visão, a capacidade de sentir o mundo pelos olhos. Tive a sorte de encontrar um departamento de retina forte, com gente inteligente, dedicada e incansável quando o propósito é preservar a visão. E num momento em que a especialidade vivia, e ainda vive, uma explosão impressionante de descobertas diagnósticas e terapêuticas. Foi isso que despertou em mim também o gosto pela pesquisa clínica.

O encanto na cirurgia de retina

Não posso deixar de lado o encanto pela beleza da cirurgia de retina. A mesa cirúrgica cheia de instrumentos delicados, a cirurgia feita no escuro, sob luz própria, longa e variável, cada vez mais segura e precisa com as novas técnicas. Uma cirurgia em que o cuidado, a técnica precisa e a atenção se traduzem em resultado. Eu queria decifrar a retina para entender o olho por inteiro. E assim foi: passo o meu dia a dia aprendendo a decifrar a retina.

No centro cirúrgico, poucos minutos depois de começar, entro num estado que hoje sei ter nome: estado de flow. Perco a noção de tempo e espaço, esqueço desconfortos, mergulho com uma concentração difícil de reproduzir em qualquer outro lugar da minha vida. Seja uma cirurgia de catarata, seja uma situação de extrema complexidade na retina, é preciso estar inteiro ali. A cirurgia de retina é um caminho percorrido passo a passo, às vezes para frente, às vezes de volta. Um quebra-cabeça que se monta aos poucos, com desvios que exigem raciocínio imediato e decisão precisa. Nem tudo sai perfeito, mas quase sempre sai melhor do que começou. A minha performance não me envaidece, até porque as nossas limitações se impõem sem cerimônias. O que me satisfaz é a entrega com que buscamos, em equipe, o melhor resultado possível.

Um momento especial no centro cirúrgico

E há um tipo de momento que me marca mais do que qualquer outro. Aquele em que já não parece haver o que fazer, em que a situação parece sem saída, e de repente algo acontece e a solução aparece. Uma manobra diferente e improvável, uma ideia inusitada que simplesmente clareia tudo. Nesses momentos, tenho a sensação nítida de que não fui só eu. Tenho fé, e acredito que não estou sozinho naquela cirurgia, que sou muitas vezes mais instrumento do que autor do que ali acontece. Isso, de novo, não me toca com vaidade. Pelo contrário, me faz sentir parte de um conjunto, ao lado da instrumentadora, do anestesista, de toda a equipe que se vê, e, para mim, também do que não se vê, mas que eu sinto presente.

O que me move todos os dias…

É essa mistura de desafio técnico, cuidado minucioso, dedicação incondicional e fé que me move todos os dias, no consultório ou no centro cirúrgico. Não escolhi a especialidade por acaso, nem por um único motivo. Escolhi porque, diante do desafio, da beleza e da responsabilidade, foi ali que encontrei o meu caminho.

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Escrito por Dr. Francisco Stefanini · Oftalmologista · Retina, Vítreo e Mácula · CRM-SP 128.920 · RQE 36.750 · Subespecialização em Retina e Vítreo pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP).