Moscas volantes: quando são normais e quando é urgência

Por Dr. Francisco Stefanini · Médico oftalmologista, especialista em Retina e Vítreo

Pontinhos, fiapos, pequenas teias que passeiam pela visão e fogem quando você tenta olhar direto para elas. Ficam mais evidentes contra uma parede branca, o céu ou a tela do computador. Quase todo mundo, em algum momento da vida, vai notar alguma. São as moscas volantes.

A boa notícia vem primeiro: na grande maioria das vezes, elas são só o olho envelhecendo do jeito que ele tem que envelhecer. Incomodam, mas não ameaçam a visão. A notícia que merece atenção vem logo depois: às vezes, elas são o primeiro aviso de um problema na retina que não pode esperar. Este texto é sobre saber a diferença.

O que são, afinal, as moscas volantes?

Dentro do olho existe um gel transparente, o vítreo, que preenche todo o espaço atrás do cristalino. Na juventude, ele é firme e uniforme, como uma gelatina, e fica aderido à retina. Com os anos, vai ficando mais líquido, e as fibras que o formam se juntam em pequenos aglomerados.

Esses aglomerados ficam flutuando no caminho da luz até a retina, que é a tela onde a imagem se forma. O que você enxerga não é a fibra, é a sombra dela projetada na tela, como poeira na lente de um projetor. Por isso elas acompanham o movimento dos olhos e escapam quando você tenta encará-las.

Em algum momento da vida, na grande maioria das pessoas, esse gel se solta da retina. É o que chamamos de descolamento do vítreo posterior, ou DVP. Muita gente chega ao consultório já com esse nome na ponta da língua, preocupada. O nome assusta, mas é um processo absolutamente fisiológico, parte natural do envelhecimento do olho. Costuma acontecer a partir dos 50 ou 60 anos e muitas vezes vem acompanhado de uma mosca maior, às vezes em forma de anel.

Por que esses pontinhos na visão aparecem?

Na maioria das vezes, por esse envelhecimento natural do vítreo. Algumas situações antecipam ou favorecem o processo: a miopia, principalmente de grau mais alto, uma cirurgia de catarata feita anteriormente, um trauma no olho e as inflamações dentro dele. Há ainda os casos em que os pontinhos são, na verdade, sangue no vítreo, o que pode acontecer em algumas doenças da retina, como a retinopatia diabética.

Moscas volantes são perigosas?

Quase sempre, não. O ponto de atenção está no momento em que o vítreo se solta. Na maior parte dos olhos, ele se desprende de forma limpa. Em alguns, está mais grudado num ponto da retina e, ao se soltar, puxa, como um adesivo que, ao ser descolado, leva um pedacinho do papel junto. Esse pedacinho é uma rasgadura na retina.

Os clarões, ou a sensação de flashes, vêm da mesma origem. Quando o vítreo puxa a retina, ela responde do único jeito que sabe: com luz.

Para dar uma ideia de proporção: entre as pessoas que procuram atendimento com moscas ou clarões de início recente, cerca de 1 em cada 7 tem uma rasgadura. Ou seja, na maioria das vezes não há nada, mas não dá para saber de que lado você está sem examinar. Sem tratamento, uma rasgadura pode deixar o líquido passar por baixo da retina e evoluir para um descolamento de retina. Aí, sim, a visão está em risco.

Quando é urgência?

Pode esperar a consulta de rotina quando as moscas são antigas, você já as conhece e elas não mudaram.

Procure um oftalmologista em até 24 horas se as moscas surgiram de repente, mesmo que seja a primeira vez e mesmo que sejam poucas. O mesmo vale se a quantidade aumentou de uma hora para outra, ou se apareceram clarões ou sensação de flashes, principalmente no canto da visão.

Vá no mesmo dia, sem esperar, se notar uma sombra ou cortina avançando sobre parte da visão, uma queda ou embaçamento da visão que não melhora ao piscar, ou uma “chuva” de pontinhos escuros.

Em qualquer desses casos, o exame precisa olhar a retina inteira, até as bordas, com a pupila dilatada. Por isso, o ideal é que seja feito por um especialista em retina.

Como é o exame?

O exame é o mapeamento de retina, com a pupila dilatada por colírio. É olhar a retina inteira com luz e lente, inclusive as bordas, onde as rasgaduras costumam aparecer.

Quando disponível, ele é complementado pela retinografia de campo amplo, uma fotografia que registra boa parte da retina numa única imagem. Ela ajuda a documentar o que foi visto e, às vezes, a encontrar alterações que passariam despercebidas. Não substitui o mapeamento, soma a ele. Quando há sangue no vítreo, a ultrassonografia pode complementar a avaliação.

A dilatação às vezes prejudica a qualidade da visão, e isso pode ser incômodo para algumas pessoas por algumas horas.

Um detalhe que pouca gente conta: mesmo com o exame normal, vale ficar atento nas semanas seguintes. Uma pequena parte das rasgaduras aparece depois do primeiro exame. Se os sintomas mudarem, volte. Em alguns casos, já combinamos um novo exame.

Moscas volantes têm tratamento?

Na imensa maioria das vezes, não precisam de tratamento nenhum. Com o passar do tempo, às vezes meses, as moscas tendem a sair do centro da visão e o cérebro aprende a ignorá-las, num processo que chamamos de neuroadaptação. A maioria das pessoas acaba nem lembrando que elas estão lá.

Em poucos casos, elas podem impactar de verdade a qualidade de vida. Para quem as moscas atrapalham o dia a dia, existem opções. A vitrectomia remove o vítreo e, com ele, as moscas. Mas, por ser um procedimento cirúrgico, exige cuidado na indicação e fica reservada para casos bem selecionados.

Há também o laser, às vezes oferecido para fragmentar as moscas. Ele não tem comprovação científica consistente de benefício e, em alguns casos, pode até aumentar o risco de uma rasgadura na retina. Em geral, não se indica laser para esses sintomas.

Já quando o exame encontra uma rasgadura, a conversa é outra, e o tratamento não deve ser adiado. Em geral é feito com laser, mas outro tipo de laser, com outro objetivo: cercar a rasgadura e impedir que ela evolua para um descolamento de retina.

O que não fazer

Não espere para ver se passa quando houver clarões, cortina ou aumento repentino das moscas. Não gaste com colírios, vitaminas ou suplementos que prometem dissolvê-las: não há evidência de que funcionem. E não conclua sozinho que é normal porque “todo mundo tem”. Todo mundo tem mesmo, mas só o exame mostra se as suas são só isso.

Dá para conviver bem com elas?

Dá, e a maioria das pessoas convive. O que muda depois de um exame bem feito não é a quantidade de pontinhos. É a tranquilidade de saber o que eles são, e de saber quando voltar.


Se os sinais de urgência começaram agora, não espere: procure um pronto-atendimento oftalmológico ou, se preferir, uma avaliação comigo no SKeye Vision, nos Jardins. Os contatos estão na página [Contato].

Dr. Francisco Stefanini · MÉDICO oftalmologista · CRM-SP 128920 · RQE 36750 · Especialista em Retina e Vítreo pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP) · Atualizado em outubro de 2026

Referência: Hollands H, Johnson D, Brox AC, et al. Acute-onset floaters and flashes: is this patient at risk for retinal detachment? JAMA. 2009;302(20):2243-9.