Primeiro, podem vir os pontinhos na visão, às vezes os clarões no canto. Depois, pode aparecer uma sombra que parece avançar como uma cortina. É assim que costuma se anunciar o descolamento de retina, uma das situações da oftalmologia em que o tempo pode definir a visão final.
E ele tem uma característica traiçoeira: não dói. Muita gente espera passar justamente porque não sente nada. Mas a retina só funciona quando está encostada na parede do olho, e o tempo que ela passa solta importa muito.
O que é o descolamento de retina?
A retina é a camada fina e sensível à luz que forra o fundo do olho, como uma tela. É a retina que transforma a luz em sinal que será direcionado para o cérebro, onde a imagem será interpretada. Para funcionar, ela precisa ficar colada à parede do olho, de onde recebe oxigênio e nutrientes. No descolamento de retina, ela se separa dessa parede e começa a sofrer.
Pense num papel de parede. Enquanto está bem colado, tudo certo. Se aparece um rasgo e entra água por trás, o papel começa a se soltar, e quanto mais água passa, mais ele descola. O tipo mais comum de descolamento de retina funciona assim: começa com uma rasgadura ou um buraco na retina, e o líquido de dentro do olho passa por essa abertura e vai empurrando a retina para longe da parede.
Há outros tipos, menos comuns. Em algumas complicações do diabetes, a retina é puxada por cicatrizes que se formam sobre ela. Em certas inflamações e outras doenças, é o acúmulo de líquido por baixo que a descola, sem que exista rasgo. São formas com causas, comportamento e tratamento bem diferentes.
Quais são os sintomas do descolamento de retina?
Os primeiros sinais costumam ser os da rasgadura que vem antes do descolamento: um aumento repentino de moscas volantes, aqueles pontinhos e fiapos que flutuam na visão, e podem aparecer clarões ou sensação de flashes, principalmente na lateral do campo visual. Expliquei isso com mais detalhe no texto sobre moscas volantes.
Quando a retina já começou a se soltar, aparece o sinal mais característico: uma sombra ou cortina que avança a partir de um dos cantos da visão. Se o descolamento chega à mácula, o centro da retina, a visão embaça ou cai de repente, e as linhas retas podem parecer tortas.
Pontinhos e clarões novos pedem exame em até 24 horas. Cortina e queda da visão pedem atendimento no mesmo dia. E nada disso dói: a ausência de dor não significa que o problema seja menos grave.
Quem tem mais chance de ter descolamento de retina?
Qualquer pessoa pode ter. Mas o risco é maior para quem tem miopia, principalmente de grau alto, e aumenta com a idade, por causa da mudança natural do vítreo, o gel que preenche o olho. Também pesam no risco cirurgias anteriores no olho, como a de catarata, um trauma no olho, um descolamento prévio no outro olho, casos na família e algumas alterações na periferia da retina que só o exame identifica. Para quem está nesses grupos, vale fazer o mapeamento de retina com alguma regularidade, conforme a orientação do oftalmologista.
Como é feito o diagnóstico?
Com o mapeamento de retina, com a pupila dilatada por colírio, examinando a retina inteira, inclusive as bordas. Quando disponível, a retinografia de campo amplo complementa o exame e registra a extensão do descolamento. Quando há sangue no vítreo ou outra coisa impede a visão do fundo do olho, o ultrassom ocular pode complementar a avaliação.
A tomografia de coerência óptica, OCT, mostra com detalhe se a mácula já foi atingida. É uma informação que pesa na decisão do tratamento e no que se pode esperar da recuperação.
Como é o tratamento do descolamento de retina?
Quando o exame encontra só a rasgadura, ainda sem descolamento, o tratamento costuma ser com laser. Ele cria uma cicatriz em volta do rasgo e ajuda a impedir que a retina se solte. É o cenário em que chegar cedo faz mais diferença, e o melhor motivo para não esperar quando aparecem os primeiros sinais.
Às vezes, os sintomas só aparecem com o descolamento já em curso. Quando a retina começou a descolar, há indicação de cirurgia na grande maioria dos casos. A escolha da técnica depende do tipo, do tamanho e do tempo do descolamento.
A mais usada hoje é a vitrectomia, que retira o vítreo, recoloca a retina no lugar e deixa dentro do olho uma bolha de gás ou óleo de silicone para segurá-la enquanto cicatriza. Em casos selecionados, é possível fazer a retinopexia pneumática, em que se injeta uma pequena bolha de gás sem retirar o vítreo, combinada com laser ou congelamento da região do rasgo. Há também a introflexão escleral: uma faixa de silicone é colocada por fora do olho e aproxima a parede da retina, como se a parede fosse ao encontro do papel. Todas as técnicas dependem de muitas variáveis e o tratamento deve ser individualizado, caso a caso.
Muitas vezes, após o procedimento cirúrgico, é preciso manter a cabeça em uma determinada posição por alguns dias, para que a retina fique no lugar certo e o laser cicatrize, aumentando a chance de manter a retina colada. Não é confortável, mas faz parte do tratamento, um esforço que pode fazer toda diferença.
A visão volta depois do tratamento?
Depende, e a resposta honesta tem duas partes. A primeira é o objetivo da cirurgia: recolocar a retina no lugar e impedir que o quadro avance. Na maior parte dos casos isso é alcançado, embora, em uma minoria dos casos, seja necessária mais de uma cirurgia.
A segunda é a visão. A recuperação depende principalmente de duas coisas: se a mácula foi atingida e, se foi, há quanto tempo ela está descolada. Quando a mácula ainda está no lugar, as chances de preservar a visão central são bem melhores. Quando ela já se soltou, a recuperação tende a ser parcial e mais lenta. É por isso que não dá para prometer resultado, e é por isso também que o tempo importa tanto. Prefiro explicar com clareza o que é possível esperar em cada caso.
O que você não deve fazer
Não espere a consulta de rotina quando houver cortina ou piora da visão. Procure ajuda no mesmo dia. Não descarte o problema porque não dói.
E, depois da cirurgia, se houver gás dentro do olho, não viaje de avião nem suba a lugares altos, como a serra, até que o oftalmologista confirme que o gás foi absorvido. Com a altitude, a bolha se expande, e a pressão do olho pode subir de forma perigosa. Pelo mesmo motivo, se precisar de qualquer cirurgia com anestesia geral nesse período, avise o anestesista.
Descolamento de retina é urgência, não motivo para pânico
Com atendimento rápido e o tratamento adequado, muitas pessoas preservam a visão. O caminho é reconhecer os sinais, não esperar e procurar um oftalmologista, de preferência especialista em retina.
Se os sinais de urgência começaram agora, não espere: procure um pronto-atendimento oftalmológico ou, se preferir, uma avaliação comigo no SKeye Vision, nos Jardins. Os contatos estão na página [Contato].
Dr. Francisco Stefanini · Médico oftalmologista · CRM-SP 128.920 · RQE 36.750 · Especialista em Retina e Vítreo pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP) · Atualizado em outubro de 2026.
